sábado, 28 de março de 2009

PAZES FEITAS COM A INGLATERRA


Passei boa parte de minha vida odiando a Inglaterra, detestando ingleses, negando minha própria origem, disfarçando...

Vivi boa parte de minha vida em uma mini Inglaterra, pequena côlonia inglesa que era minha família paterna. Talvez porque Niterói fosse reduto de ingleses e meus avós ziguezaguiavam entre o clube Rio Cricket e os amigos britânicos, como a família Dickles.
Eu era como uma sub-colônia neste mapa geo-político-social.

Questionei boa parte de minha vida a razão daquelas pessoas falarem tão baixo, rirem tão pouco, serem tão pouco calorosas e tão metidas. E eu era tão diferente daquilo tudo que julgava ser melhor ter nascido em uma família italiana (rs).

Bem, minha avó reinava naquela dinastia. Era alta, esguia, tinha uma voz linda e um sotaque mais lindo ainda. Só me dava livros de autores ingleses. E me fez estudar na Cultura Inglesa quando eu tinha 11 anos. Mas dava ainda muitas regras e broncas. Nem vou lembrar de como doiam por dentro. E ela me ignorava.

Meu avô era doce. Ela o chamava de "honey". Religiosamente ouvia as notícias de Londres via rádio e eu acompanhava aqueles jingles e vozes carregadas do mais puro inglês. Ele me dizia que eu só ficava quieta quando estava dormindo.
Todos na família só falavam inglês, comportavam-se como ingleses, olhavam como ingleses, comiam como ingleses...
Eu não existia ali.

Alimentei por boa parte de minha vida a imagem de que a Inglaterra era mesmo constituída de um povo dominador, tal qual um polvo que com seus tentáculos vai conquistando espaço. Eram reis dos mares, piratas, cingidos pela poderosa Marinha Real, posteriormente, fortalecidos pela Real Força Aérea Britânica.
E eu? Torcia pela independência! Ficava do lado da Índia e, principalmente, do Egito, que tanto fez parte de minhas leituras na infância e que tive o prazer de visitar anos mais tarde.

Lutei por boa parte de minha vida pela minha própria independência daquela monarquia fincada em terra brasileira. Revoltava-me contra posturas, formas e blocos de gelo, mesmo adorando o impreterível chá das cinco, deliciosamente preparado por Dona May Martin, exímia cozinheira.
E acabei brigando com ela, coisa que ninguém ousava...

Boa parte de minha vida passou. De tudo que vivi, questionei, alimentei e lutei, sobrou uma imensa vontade de estar com minha avó, compreender quem ela era. E, claro, tentar entender quem eu era, de onde vim... Pedi perdão e voltei a pisar na Inglaterra. Talvez mais do que todos da família que já tinham estado lá de verdade.

No enterro de minha avó, fui convidada para falar. Fiz uma homenagem em público e outra secreta. Só eu e ela sabíamos. E descobri que só havia brigado porque era muito parecida com ela. Assim, tudo o que antes eu rejeitava, estava agora ainda mais vivo dentro de mim. Estava reconciliado. Mas, graças a Deus, também conciliado com uma brasilidade toda minha. Era a junção da energia de minha avó com a minha alegria sempre latente.

Feitas as pazes com minha origem, chegou meu dia de conhecer o distante país. Comprei a passagem, fiz as malas. Tudo ecoava a Inglaterra. Pouco a pouco, percebi como era inglesa e como podia mudar as negativas impressões que se impregnaram em mim. Estar lá poderia ser a melhor maneira. Ver Yorkshire e conhecer minha família além mar.
Fiquei doente. Ou melhor, uma pneumonia me pegou. Decidi não ir. Não era hora ainda. Chorei. Interessante: eu já havia estado no Egito. Vi de perto tudo o que amei de longe, que queria ver libertado, sem mais domínios. E como foi bom, inesperadamente saudável.

Hoje, amo a Inglaterra de longe. Estou liberta do que não gostava. Mas ela, com certeza, me domina. De forma forte e inexplicável, sou uma inglesa fora de seu país.

Aceita chá com leite?

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