domingo, 15 de março de 2009

MALCOLM GLADWELL


Lá venho eu com minhas inquietações (rs).

Desta vez sobre uma obra do powerman Malcolm Gladwell, que aprendi a admirar e que foi apresentado a mim pelo digníssimo Sergio Vasconcellos. "Fora de série" (Outliers) é um desenrolar do óbvio, mas que me conquistou exatamente porque as explicações sobre certas obviedades são gratificantemente interessantes.

Sem ser auto-ajuda ou produção sobre psicologia barata, o autor destrincha as razões do sucesso de algumas figuras expressivas, cita os exemplos, esmiuça, prova e escancara item por item, jogando a bola para cada um de nós.

Pois bem, leia-se que o sucesso resulta do acúmulo constante de vantagens e depende, em grande parte, de quando e onde nascemos, de qual é a profissão de nossos pais e das circunstâncias de nossa criação. E ainda inclui a influência de tradições e atitudes que herdamos de nossos ancestrais. Ou seja, legados culturais de quatro ou cinco gerações passadas em nossa family tree podem fazer grande diferença em nosso modus operandi, queridos.

É bastante intrigante ver comprovado em pesquisas uma nítida diferença entre americanos do sul e do norte dos USA. A agressividade e senso de rivalidade dos sulistas é bem maior, quando provocados. Ele explica a origem disto, considerando que os sulistas possuem o que os sociólogos chamam de "cultura de honra", costumeiramente existentes em terras altas e pouco férteis. Quem vive em encostas rochosas, por exemplo, não consegue cultivar a terra e com isto, passa a criar apenas cabras e carneiros. Logo, não depende da cooperação de outros membros da comunidade para plantar, isola-se, defendendo sua criação, já que vive sob contínua ameaça de ver seus animais roubados. Ora, ora! Sendo assim, torna-se agressivo. E por aí vai...

Outros e outros legados são discutidos. Os estados do interior dos USA, outra citação, foram ocupados, em sua maioria, por imigrantes de uma das culturas mais violentas do mundo: os "escoceses-irlandeses" das Terras Baixas da Escócia, que tentavam sobreviver em terras rochosas e inférteis, fechados em seus clãs e que reagiam com dureza. Taí uma discussão sobre conhecidas brigas de famílias em várias cidades daqui e dali.

Isto vem de longe, é repassado para cada geração, entra na veia e faz com que legados culturais sejam forças poderosas, com raízes profundas e vida longa, que nos alcançam, podendo determinar ou não o volume de nosso sucesso.

Estar no lugar certo e no tempo certo também determina sucesso. Gladwell dá inúmeros exemplos na área de tecnologia e informática, citando outliers como Bill Gates e Bill Joy, que estavam com a idade certa de produtividade quando 1975 acontecia como o momento mais importante na história da revolução do PC. Se fossem um pouco mais novos ou mais velhos neste período teria feito muita diferença. E ainda a formação deles e seu envolvimento com computadores foram substancialmente favorecidos por alguma oportunidade incomum, seja porque já estavam no Vale do Silício, tinham chance de manusear as grandes máquinas da época na universidade, fizeram contato direto com grandes mentes da informática etc etc etc

Eficácia de pilotos de aviação comercial também são analisados, visto um detalhe pouco conhecido por nós: IDP (Índice de Distância de Poder), que revela o grau em que uma cultura valoriza e respeita a autoridade. As consequências deste comportamento são comprovadas nas leituras de caixas pretas depois de desastres áereos.

Escrevo porque estou feliz pela leitura que, como disse, apresenta o óbvio, mas vale pela peculiaridade e detalhes das explicações. Sim, sabemos que cada um de nós possui sua personalidade característica. Mas a ela se sobrepõem as tendências, os pressupostos e os reflexos transmitidos pela história da comunidade onde crescemos.

E o mais intrigante é que a inteligência, o nível de QI não são tão importantes. A inteligência não leva alguém mais ou menos longe em termos de sucesso. Ser um outlier requer muito mais que isto. E eu fico grata por constatar estas e outras evidências quando me deparo com tanta gente assim.

O que me dizem?

Um comentário:

  1. Obrigado pela citação, mas devolvo o "Digníssima", que além de lhe cair melhor do que em mim, adjetiva muito bem a mulher/jornalista que escreve com a alma e com o coração, pelas mãos de Deus. Pode soar estranho esse tipo de comentário logo em seguida a uma observação que fiz em relação a um outro texto seu, mas insisto: você, solta, é genial.

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