Não vou negar. Sou uma pessoa de dupla personalidade.
Sou duas mulheres em uma só. Aliás, sou várias (rs).
Há mais vantagens que desvantagens nisso.
Mais versatilidade, dinamismo, energia...
Tem gente que se confunde, tem gente que sabe bem aproveitar.
Só que há duas em mim muito fortes e diametralmente opostas.
Aquela que é absolutamente urbana, jornalista, multimídia, hitech...
E aquela que é infinitamente rural, fazendeira, natureba, sem medo de mato ou bicho...
Uma sobe no salto alto, sintoniza a frequência da cidade, usa a marra, a sofisticação.
Prescruta a selva de pedra, sua a blusa branca de gola, tentando domar o leão à unha (por dia).
Com sede de aprender, necessidade de antever, vícios de correr.
Marcada por tantos lugares e viagens que já fez.
Aquela que já foi pós-moderna.
Hoje é uma vítima da volúpia da era da informação e do conhecimento.
Pobre de mim. Desfaleço de estresse.
Converso com qualquer um, sento em qualquer lugar, escuto de tudo, faço tudo.
Entro nos eventos, dirijo sozinha pelas ruas, pago o preço.
Tão cheia de autonomia por fora.
Tão frágil por dentro (rs).
A outra pega a estrada e parte para longe.
Aonde as estrelas têm rosto, os dias começam bem mais cedo.
Calço a botina, subo a colina, abro caminho no mato, colho a lavoura.
Anseio por cavalos, seu cheiro e parceria.
Amo tirar leite das vacas, ver a boiada passar, assistir a cultura local.
Mudo meu jeito de falar, sento na beirada da varanda, ando no meio da bicharada.
Só não gosto de histórias de assombração (rs).
Prendo o cabelo, me ralo aqui e ali, aprendo tanta coisa que não sei.
Tomo banho, saio na escuridão e vou prosear com gente simples.
Peões, agricultores, mulheres do lar que nem sabem o quanto me ensinam da vida.
E eu...
Tão frágil por fora.
Tão cheia de autonomia por dentro (rs).
A outra parte de mim se acaba.
Hora de retornar.
E assim, vivo com saudades.
Uma Virgínia sente falta da outra.
Convivem bem juntas.
Mas precisam se dividir quando estão em mundos tão diferentes.
Nessas férias de meus filhos eu fugi.
Fui me curar, libertar uma de minhas personalidades.
Estava em agonia, sonhando com o verde que me subia à cabeça.
Consegui!
Parti para o interior do estado, para uma paisagem amada.
Para um lar surpreendentemente afetuoso, uma casa no campo cheia de luz.
Fui para o que chamam de roça.
Tão diferente do interior do estado de São Paulo, onde morei e vi suas riquezas.
Voltei ralada, de mãos grossas, com um saco enorme de roupa suja.
E imensamente feliz!
De cabeça leve, corpo suave, linda por dentro, abastecida.
Agora, encarno a outra Virgínia.
Ela também é feliz aqui.
Mas sem a outra não vive em paz.
Que bom!
Que venham o verde, o mar, os bichos, a terra molhada, o fruto colhido à mão.
Sim, a terra estará lá me esperando para a próxima colheita.
E frutos melhores virão!
Amém!
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